Eles gostam de tudo o que é antigo, de roupas estilo vintage a computadores com teclado de cobre. Eles são os steampunks, uma turma que combina o fascínio pelas máquinas do final do século 19 com as modernidades deste século. O movimento nasceu nos Estados Unidos, ganhou a Europa e já tem adeptos no Brasil
Os rapazes não cobiçam a última novidade da Macintosh. Preferem teclados de cobre de computadores antigos. As meninas não estão atrás dos jeans nem das camisetas mais transados. Gostam mais de espartilhos, saias e acessórios, a maioria saída de brechós. Eles fazem parte de uma nova tribo urbana chamada steampunks. Criativos e elegantes, esses jovens se autodenominam retrofuturistas, ou seja, misturam passado e futuro tanto no comportamento quanto no estilo. Isso significa viver o mundo de hoje com um olhar atento às referências de outros séculos. Mas, a principal inspiração vem da Inglaterra do século 19, ou a era vitoriana, quando os homens usavam cartolas, bigodes grandes e caídos, e as mulheres, espartilhos. Tempo também dos motores a vapor (daí o termo steam, que significa vapor em inglês) e das grandes invenções. Um steampunk, portanto, olha para o futuro, mas abomina produtos em série. Por isso, costumam dar toques pessoais a esses objetos – como revestir uma TV de tela plana com tecido estilo vitoriano, é claro.
O movimento steampunk nasceu nos Estados Unidos, no final dos anos de 1980, como uma vertente dos cyberpunks (que centravam sua filosofia na internet e seus efeitos sociais). Aos poucos foi se espalhando pelo mundo. Chegou até a Europa, especialmente Londres, Paris e Berlim. Aos poucos, ganhou adeptos na Austrália. Nos Estados Unidos, tornou-se mais forte em São Francisco e Nova York, principalmente no Brooklin – o atual bairro hype da cidade.
No Brasil, já existem comunidades no Orkut – a internet é um meio importante de propagação do movimento – e um site ‘oficial’ da tribo no país (www.steampunk.com), criado pelo gaúcho Emerson Bohrer. Programador de software, ele sempre se interessou por ficção científica, mas, ao mesmo tempo, gosta do estilo e comportamento do passado. Por isso, sua identificação com os steampunks. ‘Estamos perdendo a cultura e a educação, coisas que o movimento valoriza. Entre nós, não tem essa de mulher melancia ou algo parecido’, diz. No dia a dia, ele não usa as roupas características, mas gosta de se paramentar nos encontros com os amigos. ‘Tenho a minha cartola, os meus acessórios. E estou transformando meu computador para ele ficar no estilo vitoriano’, afirma. Bohrer acredita que a comunidade brasileira tenha hoje pelo menos 300 pessoas. Ele calcula ainda que existam uns 30 mil steampunks espalhados pelo mundo. ‘O grupo está começando a se organizar’, diz.
Nos Estados Unidos, há até uma revista virtual sobre o assunto (www.steampunkmagazine.com), editada pela designer e fotógrafa Libby Bulloff, 25 anos. ‘Gosto de reinventar o presente, usando coisas do passado e do futuro’, diz Libby. Ela retrata isso no visual: usa os cabelos bem vermelhos e uma make que valoriza a boca e os olhos. Seu guarda-roupa é recheado de saias rodadas, muitos tipos de luvas de crochê, um acervo de bijoux, chapéus com penas e vários espartilhos.
Tudo é escolhido com cuidado e, para inspiração, há os estilistas cultuados pelo grupo. Alexander McQueen, Nicolas Ghesquière e Ralph Lauren estão entre eles. ‘Nosso estilo é o refinamento’, diz o músico americano John James. ‘Estou cansado de ver pessoas nas ruas com as calças caindo.’ A customização também é valorizada em
espartilhos, chapéus e redingotes.
O historiador G. D. Falksen, 26 anos, é um estudioso do comportamento steampunk. Ele participa de conferências e escreve sobre o estilo de vida dessa tribo. Falksen criou um teste, que foi aplicado a cerca de 13 mil pessoas. Chegou a um resultado curioso. Segundo ele, existem oito categorias de steampunk – aristocrático, bandido, cientista, explorador, oficial, burguês, pirata e trapo -, mas todos são steampunks. ‘Todos veneram os símbolos de poder do Império Britânico, mas isso não significa que aceitem o racismo e o colonialismo. Esse é um movimento mais social do que político’, afirma.
Se política não é o forte, as artes reúnem alguns ídolos. Autores como Júlio Verne e Arthur Conan Doyle são os expoentes. Com seu estilo gótico e romântico, o diretor de cinema Tim Burton e a atriz Helena Bonham Carter também são venerados pela turma. Lucas Lanthier, vocalista, guitarrista e compositor do Deadfly Ensemble, também. Ele diz, até mesmo, que mora no ‘planeta Steam Punkia’. Entre os filmes cultuados estão O enigma da pirâmide, De volta para o futuro 3, O ladrão de sonhos, A máquina do tempo, O grande truque e A liga extraordinária.
Mas ser steampunk de vanguarda também é gostar de bons costumes e formalidades. Esses retrofuturistas buscam diversões, digamos, puras, como chá da tarde com bolos e festas em jardins, bem ao estilo do século 19. E por que punk, se a palavra nos lembra agressão ou mau comportamento? ‘Acho que é punk no sentido de transgredir. De certa maneira, transgredimos a sociedade de hoje quando cultuamos também o passado’, diz o gaúcho Emerson Bohrer.
Eles podem cultuar o passado, mas não o extremo conservadorismo da era vitoriana. Afinal, foi uma época em que surgiram invenções que mudaram o mundo – a luz elétrica, o telégrafo, o telefone, a refrigeração. Será que os steampunks chegaram para nos lembrar de que, mesmo com tanta tecnologia, é preciso manter a elegância?
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